sexta-feira, 26 de junho de 2026

O Mundo em Campo: Copa, Poder e Eleição — Quando o Futebol Vira Xadrez

 Por um advogado e jornalista pouco ingênuo


A Copa do Mundo de 2026 deveria ser uma festa. Em vez disso, virou um espelho incômodo das contradições do poder global — e o Brasil assiste ao jogo com um olho no placar e outro na urna.

O campo de jogo é o mundo

Sediada por EUA, Canadá e México, a Copa 2026 nasceu marcada por uma ironia que Maquiavel apreciaria: o país anfitrião está em guerra. Pela primeira vez na história, um dos países-sede — os Estados Unidos — participou de ofensivas militares contra uma seleção classificada, o Irã. O resultado foi previsível: 15 membros da delegação iraniana com vistos negados, árbitro somali detido por 11 horas no aeroporto de Miami, jogadores iraquianos interrogados como suspeitos. O maior evento esportivo do planeta funcionou, por alguns dias, como extensão da política migratória de Trump.


A FIFA, fiel à sua tradição de neutralidade seletiva, reagiu com o costume: silêncio eloquente. Afinal, quando a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022, FIFA e UEFA agiram com rapidez e suspenderam as seleções russas. 

A relação de Infantino com Trump chegou ao ponto de o presidente da FIFA conceder ao líder americano o "Prêmio da Paz" da entidade — meses antes de Trump liderar ataques que mataram o aiatolá Khamenei. Constrangedor seria um eufemismo gentil.

Economia do espetáculo

Por trás das chuteiras há uma engrenagem econômica colossal. A Copa 2026, com 48 seleções e 104 jogos, é o maior mundial da história — e também o mais lucrativo. Os EUA investiram pesado em infraestrutura e segurança, e a movimentação turística deve injetar bilhões nas economias locais. Mas os preços dinâmicos dos ingressos — eufemismo para "leilão disfarçado" — tornaram o evento inacessível para torcedores de menor poder aquisitivo. O futebol popular virou produto premium.

No plano macro, o FMI projeta crescimento do PIB mundial de apenas 3,1% em 2026, num ambiente de tarifas elevadas, instabilidade das políticas econômicas dos EUA e conflitos geopolíticos que pressionam o comércio e os investimentos. O espetáculo vai bem; a economia real, nem tanto.

Brasil: malabarismo entre a bola e a urna

Para o Brasil, 2026 é um ano de dupla pressão: o hexacampeonato em campo e as eleições de presidente, governadores, senadores e deputados federais e estaduais em outubro. A combinação é deliciosa para analistas e arriscada para governantes.

Lula disputa o quarto mandato num ambiente doméstico ambíguo e polarizado: desigualdade em queda, pleno emprego atingido, mas crescimento desacelerando e inflação em alta;. Uma boa campanha do Brasil na Copa pode dar fôlego emocional ao incumbente — já que o povo brasileiro ainda confunde o desempenho da seleção com o humor político nacional. Uma eliminação precoce, por outro lado, pode custar pontos nas pesquisas. O eleitor esquece o PIB, mas não esquece a derrota para a Croácia.

No plano externo, o Brasil precisa, num ano eleitoral, de um certo malabarismo para não elevar tensões ou criar dificuldades num ambiente geopolítico muito frágil — equilibrando suas relações com Washington, Pequim e Moscou sem se comprometer demais com nenhuma delas. É a velha diplomacia da "autonomia pela diversificação", agora mais difícil num mundo que exige lados.

Conclusão: o jogo é sério

A Copa do Mundo nunca foi apenas futebol. É geopolítica com chuteiras, economia com torcida e política com apito. Em 2026, essa equação ficou mais explícita do que nunca. Enquanto a FIFA alega neutralidade e Trump decora o Salão Oval com réplicas da taça, delegações inteiras navegam burocracia hostil, árbitros são tratados como suspeitos e o Brasil torce para que Vini Jr. faça o que a diplomacia não consegue: unir o país num momento em que cada gol vale votos.

No final, como diria um velho consultor político: vencer na Copa não garante eleição, mas perder pode custar caro.


Sp. Junho de 2026

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