sábado, 3 de janeiro de 2026

Onde investir em 2026? Uma visão estratégica, pragmática e focada em resultados

Navegando Entre Oportunidades e Desafios

Por Nicholas Maciel Merlone

Ao entrarmos em 2026, investidores de todos os perfis — do conservador ao agressivo — enfrentam um cenário que combina oportunidades inéditas e desafios bem conhecidos: juros em transição, volatilidade política, um ciclo tecnológico em expansão e temas macroeconômicos que vão exigir mais disciplina do que ousadia.

Não estamos em um ano normal. É um ano eleitoral no Brasil, ao mesmo tempo em que mercados internacionais projetam cortes de juros e rotas de crescimento mais cautelosas. Por isso, a pergunta que todos fazem — onde investir em 2026 — merece uma resposta que vá além de dicas de ativos: ela precisa ser estratégica, contextual e acionável.

Sendo assim, o ano de 2026 se desenha como um divisor de águas para investidores brasileiros. Depois de três anos consecutivos de altas nos mercados globais e recordes históricos do Ibovespa, o momento pede cautela estratégica, seletividade e, sobretudo, uma compreensão profunda das forças que moldarão o cenário econômico nos próximos meses.

Não se trata mais de escolher entre renda fixa ou variável. O jogo mudou. Estamos diante de um contexto polarizado, onde a queda gradual da Selic conviverá com incertezas fiscais acentuadas por um ano eleitoral, tensões geopolíticas crescentes e uma reconfiguração completa das cadeias produtivas globais. Investir em 2026 exige, portanto, não apenas técnica, mas visão sistêmica.

1. O cenário macroeconômico que vai moldar os investimentos

Antes de escolher ativos, olhe o ambiente em que eles vão operar.

Juros e inflação

2025 termina com a Selic muito acima dos patamares históricos recentes. A perspectiva central é de início de um ciclo de queda de juros no Brasil ao longo de 2026, ainda que de forma gradual e com muita atenção às agendas do Copom. Com juros mais baixos, o apetite por risco tende a crescer — especialmente para ativos de renda variável e moedas fortes — ao passo que renda fixa entra num novo ciclo de transição. IstoÉ Dinheiro

O mesmo acontece nos EUA: o Federal Reserve começou a sinalizar cortes com “viés duro”, indicando redução moderada da taxa básica, o que pode favorecer mercados de risco e valuation de ações. Forbes Brasil

Política e volatilidade

2026 é ano eleitoral no Brasil e isso adiciona um componente significativo de volatilidade e ruído político aos mercados. Decisões fiscais, perspectivas de gastos públicos e confiança do investidor vão alternar entre otimismo e cautela — e investidores devem precificar isso. VEJA


2. Estratégias de alocação vencedoras para 2026

Não existe um “ativo mágico”. Mas há temas consistentes com tendências estruturais e macroeconômicas mundiais, que cruzam múltiplas fontes e análises.

a) Renda fixa estruturada: não descarte ainda

Apesar da expectativa de corte de juros, os níveis atuais — especialmente de renda fixa pós-fixada — ainda oferecem carregos atrativos para quem sabe travar taxas elevadas antes que elas caiam. Isso vale tanto para o Tesouro quanto para debêntures e Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), com destaque para títulos de setores essenciais como energia e saneamento. O Brasilianista

Sugestão prática: mantenha posições em pós-fixados robustos e procure travar rendimentos prefixados ou indexados à inflação antes que o ciclo de corte acelere.


b) Ações brasileiras: setor financeiro e sensíveis a juros no radar

Com juros em tendência de queda, segmentos que se beneficiam diretamente da redução de custo de capital — especialmente financeiro, consumo discricionário e crédito — tendem a se destacar. O JPMorgan, por exemplo, aponta bancos e fintechs como protagonistas. InfoMoney

Sugestão prática: combine exposição a blue chips sólidas com participação tática em empresas que crescem com queda de juros e retomada de crédito.


c) Temas estruturais globais: IA, energia e segurança

A Forbes identifica temas que não são apenas moda, mas megatrends que moldarão retornos ao longo da década — com ênfase em:

  • Infraestrutura de energia e data centers

  • Continuidade do boom de inteligência artificial

  • Modernização global de defesa e segurança

  • Diversificação internacional de ações, além dos EUA Forbes Brasil

Esses temas cortam fronteiras e oferecem alavancas de retorno independentes do ciclo brasileiro de juros.

Evite concentração excessiva em uma única empresa.


d) Ouro, dólar e proteção: hedge inteligente

Em momentos de transição de juros e incerteza política, ativos de proteção como ouro e moedas fortes (ou fundos que exponham ao dólar) continuam relevantes. A experiência global em 2025 mostrou que essas posições podem agir como seguro de portfólio, especialmente se grandes bancos centrais começarem a reduzir juros. InvesTalk

Sugestão prática: alocar uma parcela da carteira em ouro físico, ETFs ligados à commodity ou fundos cambiais.


3. O papel da diversificação como vantagem competitiva

A lição que 2025 deixou em claro — e que 2026 confirma — é que tentar cronometrar mercados é quase sempre menos eficaz do que buscar exposição diversificada a múltiplos fatores de retorno.

  • Renda fixa: ainda relevante com ajustes táticos em prazos e indexadores.

  • Renda variável local: foco em setores sensíveis à queda de juros.

  • Renda variável global: uso de ETFs internacionais para temas estruturais.

  • Commodities e proteção (ouro): diversificação e hedge.

Essa abordagem é válida para perfis que buscam crescimento — com tolerância ao risco — e para os mais conservadores que priorizam preservação de capital sem abrir mão de retorno real.


4. Narrativa para seu portfólio em 2026

Se eu pudesse resumir em uma linha o que fará diferença em 2026, seria:

“Estratégia consistente + diversificação temática + disciplina na execução.”

O ano não vai premiar apostas radicais. Ele premia quem entende fatores de risco, estrutura cenários de longo prazo e se posiciona com flexibilidade tática.


Conclusão — A visão Merlone para 2026:  O Ano da Seletividade Estratégica

2026 exige do investidor:

  1. Resiliência estratégica: focar em temas robustos e não ceder a ruídos de curto prazo.

  2. Disciplina tática: aproveitar ciclos de juros e eventos de mercado, sem apostas excessivas.

  3. Diversificação inteligente: combinar ativos locais e globais, renda fixa e variável, proteção e exposição a crescimento.

Se 2025 já mostrou que portfólios bem construídos superam tentativas de timing, 2026 será o ano em que essa vantagem será ainda mais explícita.

Afinal, mercados são movidos por expectativas — de juros, de política, de tecnologia e, acima de tudo, pela capacidade de adaptação do investidor. Se 2026 é a prova de fogo, a boa notícia é que quem se prepara com antecedência tende a não apenas sobreviver, mas prosperar.

Finalmente, para o investidor preparado, 2026 pode ser o ano da construção de um patrimônio verdadeiramente resiliente e bem posicionado. Para o despreparado, será mais um ano de arrependimentos e oportunidades perdidas.

A escolha, como sempre, é sua.

Bônus!

Inteligência Artificial: A Revolução Continua, Não É Bolha

O tema que dominou os mercados em 2025 não é moda passageira. A inteligência artificial representa uma transformação estrutural comparável à eletrificação ou à internet. A diferença? Está acontecendo em velocidade exponencial e com empresas já lucrativas.

Os investimentos em infraestrutura de IA devem somar cerca de US$ 1,2 trilhão anualmente, com retorno sobre capital investido estimado em 20%. Isso não é especulação, é construção de uma nova economia.

Isenção de Responsabilidade

As opiniões expressas neste conteúdo são exclusivamente do articulista Nicholas M. Merlone, do blog Economista Contemporâneo, e refletem suas análises independentes. O autor certifica que: (i) não possui vínculo com instituições financeiras ou grupos econômicos; (ii) não recebeu qualquer remuneração, direta ou indireta, relacionada às opiniões aqui apresentadas; (iii) suas análises foram elaboradas de forma completamente independente, sem influência de terceiros ou interesses comerciais; e (iv) suas opiniões são apenas ilustrativas, embora crítico-reflexivas, não vinculando qualquer tomada de decisão financeira, o/a investidor/a é livre para decidir onde aplicar seus recursos, sem responsabilidade do autor.

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Os planos econômicos denominados Bresser, Verão, Collor I e Collor II são constitucionais, mas seus efeitos danosos consequenciais devem ser recompostos

Caso concreto: entre 1986 e 1991, diversos planos econômicos (Cruzado, Bresser, Verão, Collor I e II) causaram prejuízos a poupadores devido a erros na correção monetária dos valores depositados. Isso gerou milhares de ações judiciais, tanto individuais quanto coletivas, pedindo a reparação dos chamados "expurgos inflacionários". 


O setor bancário, representado pela CONSIF, ajuizou a ADPF 165 no STF, pedindo a suspensão dessas ações sob o argumento de que os planos eram constitucionais. O STF permitiu que entidades de defesa do consumidor atuassem como amicus curiae, e após anos de tramitação, houve um acordo mediado pela AGU, garantindo indenizações aos poupadores mediante desistência das ações.

O acordo coletivo previu o pagamento de mais de R$ 12 bilhões a beneficiários que ingressaram com ações judiciais ou executaram sentenças coletivas até 2016. A adesão foi voluntária e teve prazos sucessivamente prorrogados. 

Em 2025, as entidades envolvidas prestaram contas, informando mais de 326 mil acordos firmados e mais de R$ 5 bilhões pagos. Embora o acordo tenha resolvido a maioria dos conflitos de forma consensual, a controvérsia sobre a constitucionalidade dos planos ainda exigia uma decisão formal do STF para garantir segurança jurídica. 

Em maio de 2025, o STF reconheceu que os planos econômicos Bresser, Verão, Collor I e Collor II foram constitucionais, pois foram medidas legítimas adotadas pelo Estado para combater a hiperinflação e preservar a ordem econômica, conforme previsto no art. 170 da CF/88. Contudo, mesmo sendo constitucionais, esses planos afetaram contratos de caderneta de poupança em andamento, alterando os índices de correção monetária que haviam sido previamente pactuados. Isso gerou prejuízos aos poupadores, conhecidos como “expurgos inflacionários”. 

Por isso, o STF entendeu que, embora os planos sejam válidos, os poupadores têm direito à recomposição dos valores que deixaram de ser creditados, o que foi solucionado por meio de um acordo coletivo homologado pela Corte, com eficácia para todos os interessados. 

Teses de julgamento: 

1. É constitucional a adoção dos Planos Econômicos Bresser, Verão, Collor I e Collor II, por configurarem medidas legítimas de política econômica voltadas à preservação da ordem monetária. 

2. A homologação do acordo coletivo firmado entre instituições financeiras e entidades representativas de poupadores possui eficácia para a solução de demandas individuais e coletivas relativas aos expurgos inflacionários, sem necessidade de manifestação individual de todos os interessados. 

3. A jurisdição constitucional admite a autocomposição como método legítimo e eficaz para a resolução de litígios complexos e estruturais, inclusive no controle abstrato de constitucionalidade. 

STF. Plenário. ADPF 165/DF, Rel. Min. Cristiano Zanin, julgado em 26/05/2025 (Info 1179)

Fonte: Dizer o Direito.